Daniele Suzuki:
‘Sinto muita vontade de fazer a diferença aqui no planeta’
Por Leo Dias
A atriz, que começou a fazer o bem distribuindo brinquedos para crianças carentes quando interpretava a Miuki de ‘Malhação’, doa cestas básicas para famílias pobres da Cidade de Deus, além de filtros de água para a população de comunidades de baixa renda espalhadas pelo país.
Não à toa, ela foi escolhida para ser embaixadora do Waves of Water, que leva filtros para quem não tem água potável para beber.
Em conversa com a coluna, ela diz que tudo o que faz pelo próximo é um dever como cidadã e pessoa pública.
Como você descobriu o Waves for Water?
Eu descobri na verdade quando rolou aquela campanha da Ela (esclerose lateral amiotrófica) em que todo mundo começou a jogar o balde de água fria na cabeça. Recebi o desafio de vários atores e tinha me posicionado que eu não ia fazer porque eu ajudava várias outras campanhas. Eu não estava me posicionando contra a doença ou contra a pesquisa da doença, mas achava que tinham outras coisas importantes que estavam acontecendo e que eu não concordava em jogar o balde de água porque desperdiçava muita água. Me posicionei no Instagram dizendo que tinham outras campanhas relacionadas a água e citei o Waves for Water e outras que fazem o tratamento da água para torná-la potável. O Jon Rose, que é o cara que criou o Waves for Water viu que a minha postagem tinha repercutido na imprensa e entrou em contato comigo dizendo que já fazia algumas campanhas aqui no Brasil e que se eu quisesse estar no próximo projeto dele aqui no Brasil seria um prazer. Expliquei a ele que eu gostaria sim e que já tinha uma ação que eu fazia todo ano na Cidade de Deus, entregando comida para os moradores da comunidade no Natal e que, se pudesse, naquele ano a gente poderia estar transformando em água. Eu mesma fiquei duas semanas sem água na minha casa, numa época em que já estavam cortando a água em São Paulo. Nossa primeira ação aqui foi no início de janeiro. Fizemos a distribuição de 200 filtros d’água na comunidade de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias. Distribuímos água limpa para 20 mil pessoas. Depois a gente fez na Cidade de Deus. Depois em São Paulo. Eu virei a embaixadora do Waves for Water aqui no Brasil.
Você falou que ficou duas semanas sem água. Como é que foi para se virar?
Ah, horrível! Eu usava alguma água da piscina para jogar nos vasos e ficava tomando banho de garrafa d’água. Comprava garrafa d’água para cozinhar. Fiquei pensando que eu tinha dinheiro para ficar comprando garrafa de água para tomar banho… Mas e as pessoas que não tem? Percebi que, para lavar a cabeça, eu precisava de duas garrafas grandes de água. Enxaguava usando o mínimo de água possível. Vi que a caixa de água que eu tenho na minha casa é muito pequena. Duas descargas que eu dava acabava com a água da minha caixa… Então eu vi como era importante! Agora estou em obra aqui na minha casa fazendo uma enorme cisterna. A gente vai ficando realmente sem água e futuramente estaremos sem água. Comecei a perceber que o problema da água não era só no meu país, era um problema do mundo. Depois que eu comecei a participar da campanha eu vi que a doença que mais mata no mundo é a diarreia por conta da falta de água potável. A cada três minutos morre uma criança no mundo por falta de água potável. Vi que o problema era gigante no mundo inteiro. O Waves for Water tem um filtro que custa US$ 50 e esse filtro dá para atender cem pessoas por dia durante cinco anos. É um filtro pequenininho que cabe na palma da minha mão, mas limpa três milhões de litros de água! E a água é um direito de todos, né?
E como é que funciona esse filtro?
Esse filtro é instalado ou num balde que você pode jogar a água dentro desse balde e aí ele filtra vírus e bactérias. É para ser usado de forma coletiva. A gente não entrega um filtro por casa. Entregamos por grupo de família, já que um filtro é capaz de atender a cem pessoas. Com isso, as pessoas aprendem a viver de forma coletiva. Se ela não dividir a água e o vizinho ficar doente, ele vai contaminar ela também. É importante que todos estejam tendo acesso a essa água.
Você sempre foi uma pessoa engajada?
Porque você já distribuiu comida na Cidade de Deus, como é que começou isso na sua vida de olha para o próximo?
Na verdade, começou no meu primeiro ano de ‘Malhação’. A Miuki era uma febre e eu percebi ali a quantidade de pessoas que eu atingia. Percebi que eu poderia fazer alguma coisa para ajudar e eu tinha facilidade de chegar em pessoas que pudessem doar. Naquele meu primeiro ano de ‘Malhação’, eu reuni todo o elenco e organizei com eles uma ação no shopping para trocar autógrafos por brinquedo em um shopping. Foi ali que tudo começou. Fiz isso em vários shoppings. Levava quinze atores e organizava todo mundo em mesinhas trocando autógrafos por brinquedos. No primeiro ano, a gente arrecadou 20 mil brinquedos que distribuí em orfanatos. Muitos amigos depositavam dinheiro na minha conta e eu ia lá na Cidade de Deus para distribuir comida. Fiz trabalho de mão em mão.
Quantas você chegou a distribuir?
No último ano, foram 3,5 mil famílias. Cada família com oito a dez pessoas. Os atores que têm grana ajudam mesmo, sabe? Eles depositam R$ 5 mil, R$ 10 mil na minha conta… A gente consegue um dinheiro bom para comprar cesta básica. Teve um ano que não fiz porque estava atolada de tanto trabalho, mas dei o filtro. A própria Waves for Water me deu na primeira campanha 200 filtros e a gente distribuiu 100 no Jardim Gramacho e 100 na Cidade de Deus. Na verdade, a gente ia levar os 200 para a Cidade de Deus, mas naquele dia a comunidade estava sendo invadida pelo Bope e a gente não conseguiu.
Você já passou por alguma situação difícil, em alguma comunidade que você foi visitar?
A primeira vez que a gente entrou no Jardim Gramacho foi bem difícil. As pessoas vieram para cima violentas, ficaram receosas perguntando o que eles teriam que dar ou fazer em troca dos filtros. A gente dizia que a única coisa que pedimos em troca é que vocês usem e entendam a importância do filtro. Eles diziam que não queriam filtro algum, que queriam água. Então a gente explicou que eles podem armazenar água da chuva e depois filtrar com esses filtros. A gente explicou noções de higiene… Dissemos que elas tem que lavar suas garrafas para poder encher as garrafas com a água filtrada… A gente conversa separadamente com os líderes das comunidades. A gente faz a capacitação desses líderes primeiro, explica para eles como funciona o filtro e como é a manutenção desse filtro para ele não quebrar… A gente prepara essas dez pessoas deixa todos os filtros com eles, vai até comunidade com alguns filtros para mostrar como funciona e instalar e a gente bebe da água para mostrar que ela está pronta para o consumo.
Como você vê o desastre de Mariana, em Minas Gerais?
A cidade está com muito problema de água. O Waves for Water fez testes na água antes de levar os filtros e viram que a água está com muita química. Eles queriam ver qual era o produto químico para desenvolver um filtro específico para essa água. Só que eles viram que a água de Minas Gerais está praticamente com a tabela periódica inteira! Não existe filtro no mundo que possa filtrar essa água deles agora. Eles estão com falta de água mesmo. Estamos em busca de doações para ceder as caixas de água e a Sanmarco se prontificou a dar as caixas de água de 20 mil litros. A Prefeitura está levando caminhões pipa com água de poço e água da distribuidora de água de lá. A gente está instalando os filtros.
O que a ong precisa?
De doações. As pessoas podem entrar no site do Waves for Water (www.wavesforwater.com.br) e já podem doar direto. Eles fazem ações por locais. No caso de Minas Gerais, as pessoas vão doando de diversas maneiras para comprarmos as caixas, cisternas e levar os filtros para lá.
Você economiza água na sua casa? Mudei bastante. Hoje eu tenho mais
consciência. Quando eu vou escovar os dentes eu fecho a torneira. Sempre falo com o (filho) Kauai para não deixar o chuveiro ligado porque está gastando a água do planeta. Lá em casa, as plantas são regadas com água do poço.
Qual é o seu pagamento com isso?
Eu sinto isso como uma obrigação, até por ser uma pessoa pública. É um dever meu, principalmente a questão da água. Todo ser humano tem direito a ter qualidade de vida, a ter conforto, comida e água dentro de casa. Minha preocupação maior são com as crianças, que são as que sofrem mais com isso tudo. Faço isso porque eu me sinto bem em fazer. Fico feliz quando eu retorno a um lugar desses e vejo uma casinha sem nada, humilde, com o balde da Waves for Water limpinho com o filtro com um paninho tampando com cuidado. Vejo na própria Cidade de Deus, onde eu levo comida, que as pessoas comem sopa de papel. Eles não têm o que comer e boa parte das casas são de papelão. Quando chove eles perdem tudo. Às vezes ficam dois meses sem comida. Hoje eu sinto muita vontade de fazer a diferença aqui no planeta.
FONTE/ODIA










